Contra-indicação nas férias

Um dos últimos debates que provoquei em sala de aula, antes das férias – para os alunos, claro – tratou do porquê os shoppings foram eleitos espaços dinâmicos de entretenimento e lazer. Ora, muito óbvio, além dos padrões de qualidade, conforto, variedades e segurança – ainda que o objetivo primeiro seja o comércio: compra e venda em todos os âmbitos – fundamentalmente é pela falta de opções; isso sim, com certeza!

 

Aliás, entenda-se que outros espaços existem, mas nas condições em que se encontram, antes tivéssemos a pedir por eles, e não para que sejam reparados, mantidos ou (re) estruturados. Falo de certos espaços que, convencionalmente, são os procurados quando visitamos outras paragens, e também quando somos visitados: praças, praias e prédios – principalmente os tombados como patrimônio histórico – que na pior das hipóteses acabam servindo de sede para órgãos públicos; sendo que nem assim são mantidos/conservados ou disponíveis para visitação – estou falando da burocracia que é para, pelo menos, adentrá-los.

 

 As praças, geralmente, estão nos centros geográficos dos perímetros urbanos, mas isso parece não incomodar as administrações, ao menos nesse período em que as cidades recebem gente de fora. Daí, os estados de conservação em que se encontram são deploráveis – é claro que a população local é um tanto responsável por isso também, mas o simancol deveria ser mais das prefeituras mesmo; pelo menos compreender que as cidades receberão visitantes que tendem a deixar alguma renda por ali, e que precisarão de cenários para registrar bons e aprazíveis momentos de lazer e descanso, quiçá indicar a outros possíveis turistas. No entanto, nada disso acontece.

 

Hoje, e agora principalmente – o que é pior – dizer que as praças estão abandonadas é até eufemismo. Na pior das hipóteses, as praças tornaram-se banheiros públicos e não só “fedem” como não é raro vermos fezes humanas e lagos de mijo puro, os quais temos que nos desviar como se estivéssemos numa aventura em um campo minado (de excrementos). Sem falar, ainda, da extrema e deplorável miséria humana ali exposta: são seres humanos que mais parecem “bichos”, não animais; bichos mesmo – como poetou Manuel Bandeira. Verdadeiros zumbis: moradores de ruas, viciados e outros pulhas – pedintes incômodos e temerosos assaltantes. São tantos descuidos que associados à falta de segurança não permitem a ninguém o risco de conhecer um pouco mais do local que se visita.

Sobre as praias, todos os anos a mesma história: impróprias para o banho! Mas o que fazem as administrações sobre isso bem antes do período de férias, ninguém sabe explicar. Daí as pessoas optam por balneários e igarapés, onde, sinceramente, creio que se não fossem as águas correntes (quando são) a situação de impropriedade não seria, ou não seja, diferente à das praias. Já que cada vez mais os espaços bucólicos vêm sendo tomados por casas, chácaras, sítios de propriedades particulares que se apropriam da natureza como se fossem os únicos e verdadeiros donos; sem falar nos condomínios, asfaltamento e assoreamentos de outras fontes – frutos do “pseudo-desenvolvimento” que também os que moram nos interiores tanto querem – muitas vezes sem ter noção do quanto isso é mal, muito mal mesmo.

É verdade que a natureza é o que mais se quer visitar e ter contato durante as férias, mas há momentos em que conhecer a história dos lugares por onde passamos também se torna uma boa pedida; daí a necessidade de termos pessoas gentis, dispostas e receptivas (o que não nos falta, graças a Deus – os paraenses somos assim) e  patrimônios físicos, pessoas e espaços simbólicos, para que possamos visitar e registrar os bons momentos – oferecendo-nos conteúdos e conhecimentos que, de alguma forma, contribuirão para os nossos relatórios memoriais de retorno das férias; as boas referências que nos farão voltar nas férias ou feriados seguintes, acompanhados de outros interessados pela história e pela beleza dos lugares; ainda que hoje não seja tão assim, já que há burocracia demais para se entrar nos prédios patrimoniais aos finais de semana, período em que as cidades estão mais cheias de visitantes, mas que os funcionários (que também são filhos de Deus) estão de recesso, daí damos de cara com os portões cerrados.

Tudo isso são realidades a serem enfrentadas nas férias, o que de repente pode ser – a depender do gosto de cada um – uma verdadeira odisseia: aventura sem tamanho! E não apenas para quem vai de lugar em lugar, aos finais de semana buscando o melhor para um descanso, mas principalmente para quem não terá férias neste mês, e ficará para desbravar a própria cidade em que mora... E aí, se a situação é essa, o que nos resta? Os shoppings. Então, que assim seja! Quanto aos banheiros a céu aberto, que muitos insistem em chamar de praças, não nos custa nada procurar, durante horário seguro, um ou outro canto em menor estado precário no qual se possa bater uma foto – já que foto não tem cheiro, pode ser que ainda dê para sair bem na foto. Boas, se possível, férias!

Alci Santos

 

Professor de Língua Portuguesa e Redação

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